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Novo regime de fogo: comissão geral elenca desafios e conquistas no combate a incêndios

Publicado em 28/08/2025 23h06

Foto: Carlos Gandra/Agência CLDF

Hudson Coimbra relatou como foi o enfrentamento ao incêndio de grandes proporções na Floresta Nacional de Brasília, ocorrido em 2024

Ao discutir os incêndios no Cerrado em comissão geral realizada nesta quinta-feira (28), o distrital Max Maciel (Psol), que comandou o debate em pllenário, abriu os trabalhos com dados alarmantes: de 1985 até 2023, 43% do bioma foi queimado, uma área similar ao território de países como o Chile a Turquia. Para se debruçar sobre o problema, especialistas e representantes de órgãos competentes trouxeram relatos ao Plenário da Câmara Legislativa. 

Especialista em governança climática, Raphael Sebba defendeu as queimadas prescritas, um saber de comunidades tradicionais, como instrumento para monitorar e controlar o fogo, já que o bioma tende a acumular material inflamável. Apesar de comemorar a primeira contratação de brigadistas no DF para um contrato mais longo, de dois anos, clamou por políticas permanentes para o combate a queimadas. 
 

Carolina Queiroga destacou o Projeto Sem Fogo DF (Foto: Carlos Gandra/CLDF)

 

Por sua vez, a coordenadora de prevenção e combate aos incêndios florestais da Secretaria do Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Carolina Queiroga, destrinchou as ações da pasta para enfrentar a situação: além da queima prescrita e da contratação de brigadistas, a Secretaria promove campanhas de conscientização e realiza cursos de capacitação. Destacou também o Projeto Sem fogo DF, solução com Inteligência Artificial que disponibiliza um painel que monitora Brasília com câmeras instaladas em pontos estratégicos da cidade. 

“O combate é imprescindível, mas muito mais eficiente e barato aos cofres públicos é o trabalho preventivo e não conseguimos fazê-lo sem mão de obra”, apontou o diretor de Manejo Integrado do Fogo do Instituto Brasília Ambiental, Érissom Vieira Cassimiro. A estrutura disponível também faz a diferença, sinaliza o tenente coronel Ronaldo Lima de Medeiros. “Nós temos um grande número de chamadas e somente 30 viaturas. Geralmente mandamos mais de um veículo, então pode haver carência”, detalhou Ronaldo, que comanda o agrupamento de proteção ambiental do Corpo de Bombeiros Militar do DF. 
 

Foto: Carolina Curi/Agência CLDF


A mesa também ressaltou aspectos em que o Brasil e o DF são “referência”. Coordenador do Centro de Manejo Integrado do Fogo do Instituto Chico Mendes (Icmbio), João Paulo Morita avaliou que a política de manejo integrado do fogo — aprovada a nível federal no ano passado —  é “vanguardista em todo o mundo”, além de “não-negacionista”, e de prezar pelas relações com a sociedade de modo amplo, tanto com unidades da federação quanto com sociedade civil organizada e empresas. 

Outro aspecto reforçado pelos presentes foi a responsabilidade dos cidadãos na conservação do Cerrado. Para João Carlos Machado, do Movimento Caminhos do Planalto Central, trilhas ecológicas apresentam o território: a partir dessa descoberta, a população compreende o direito à floresta, bem como a obrigação de conservar. João ainda criticou a proposta de concessão da Floresta Nacional de Brasília, a qual pode “dificultar o acesso da população” ao local. 

Catástrofe de 2024 

 

A extensão das queimadas de 2024, que assustou os brasilienses, indica uma mudança no regime do fogo, explicou Fernão Lopes, chefe de esquadrão das brigadas Guardiões da Cafuringa. Ele lembrou que o fogo do Cerrado costuma ser provocado pela queda de raios, na temporada de chuvas. Nos últimos anos, porém, queimadas assolam Brasília em meses de seca, o que potencializa o impacto do fenômeno. 
 

Fernão Lopes, chefe das brigadas Guardiões da Cafuringa (Foto: Carolina Curi/CLDF)

 

“Ano passado tivemos o pior incêndio registrado em 20 anos na Flona e a melhor atuação na resposta ao incidente; mobilizaram-se todos os recursos e 200 combatentes. Conseguimos controlar esse incêndio de grande proporção e de alta intensidade em menos de 24 horas, isso sem trabalhar à noite”, enfatizou o coordenador da área técnica de prevenção a incêndios da Floresta Nacional de Brasília, Hudson Coimbra. Ele contrastou tal abordagem com a que ocorreu também em 2024 no Parque Nacional. “Foram mobilizados 800 bombeiros e levou 3 dias para ser controlado o incêndio em uma área 10 vezes menor do que a área da Flona”, comparou. 

Esclarecimentos do ponto de vista de quem conhece o Parque Nacional de Brasília por dentro vieram a seguir, na fala da chefe do Parque, Larissa Diehl. “O incêndio de 2024 revela impactos de mudanças climáticas, como o rebaixamento do lençol freático. Isso faz com que regiões que antigamente não queimavam tanto, como áreas de galeria e beiras de rios, fiquem mais expostas. Formou-se um fogo subterrâneo, que queima muita matéria orgânica. Trata-se de um combate totalmente diferenciado e com consequências graves”, resumiu. 
 

Max Maciel foi o autor da comissão para discutir o combate a incêndios no DF (Foto Carolina Curi/CLDF)

 

Maciel aproveitou a comissão para homenagear Manoel José de Souza Neto e Valmir de Souza e Silva, servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística que faleceram em julho deste ano enquanto combatiam uma queimada na Reserva Ecológica do Instituto, situada no Distrito Federal.

Assista aos debates:

 

Daniela Reis (Agência CLDF)