Debate aponta ‘machismo institucional’ como entrave à ascensão profissional de mulheres
Debate aponta ‘machismo institucional’ como entrave à ascensão profissional de mulheres

Assédio em tom de brincadeira ou "elogio", falta de representatividade de mulheres em cargos de chefia ou desrespeito às mulheres em posição hierarquicamente superior nas instituições são apenas algumas facetas do chamado "machismo institucional". O assunto foi tema de comissão geral realizada na Câmara Legislativa do Distrito Federal na tarde desta quinta-feira (21). Presidida pelo deputado Leandro Grass (Rede), a discussão colocou o machismo como a problemática central para a ascensão e a inclusão da mulher no mercado de trabalho.
Dados divulgados no início deste mês pela Codeplan, Secretaria do Trabalho e Dieese revelam que a desigualdade entre os rendimentos de homens e mulheres ocupadas no DF aumentou no último ano: elas passaram a ganhar 78,6% da remuneração deles. A pesquisa mostra ainda que, entre 2017 e 2018, o rendimento médio real auferido pelas mulheres diminuiu 1,6%; ao passo que, entre os homens, o valor médio de ganhos variou positivamente em 0,9%.
"Esse é um tema que precisa ser muito discutido. Essa agenda é um dos grandes problemas da sociedade, junto com a agenda de raça", afirmou Leandro Grass no início da comissão. "No ambiente de trabalho, temos diversas situações que apontam para a persistência do machismo: em ambientes de reunião, por exemplo, as mulheres muitas vezes não são ouvidas e são interrompidas com frequência", disse.
Não é brincadeira – Vídeo exibido durante a comissão mostrou diversos comentários corriqueiros em locais de trabalho, mas com teor depreciativo ou incômodo para as mulheres. No audiovisual, elas afirmam: "Falar que deixo o ambiente mais bonito não é elogio" e citam outras frases, como "Isso é falta de homem"; "Ela foi muito macho" e "Deve estar na TPM". O material foi produzido com a colaboração das servidoras do gabinete de Grass.
As falas foram reforçadas por histórias pessoais de participantes da comissão geral. A procuradora da Mulher na CLDF, deputada Júlia Lucy (Novo), narrou situações em que, depois de falar e se posicionar sobre determinado assunto, foi elogiada apenas pela roupa que estava usando. Ao se eleger distrital, ela disse ter ouvido diversas vezes: "Estou feliz por você ter sido eleita, agora a Câmara está mais bonita".
A distrital lamentou ainda o fato de, geralmente, levar um certo tempo para as mulheres conquistarem respeito no ambiente de trabalho, diferentemente dos colegas do sexo masculino. Ao ingressar na Polícia Federal, aos 18 anos, ela contou ter podido observar bem isso: "Levou certo tempo para eu ser levada a sério. No caso dos homens, eles já começam sendo respeitados e precisam fazer algo errado para perderem o respeito"'.
A deputada federal Flávia Arruda (PR-DF) concordou com a distrital. Também ela passa por situações semelhantes e que causam constrangimento: "É uma luta diária por conquistas. É preciso combater o machismo, que está entranhado na sociedade em todos os lugares, inclusive nas próprias mulheres". A parlamentar emendou: "O tempo todo estamos à prova: precisamos provar que merecemos respeito, que merecemos estar onde estamos".
Mudança cultural – Coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública do DF, Dulcielly Nóbrega acrescentou que, além de as profissionais mulheres serem tratadas muitas vezes como "decorativas", elas enfrentam ainda outras violências no exercício do trabalho, como os chamados, em inglês, "manterrupting" (quando um homem interrompe a fala de uma mulher com frequência; muitas vezes impedindo a conclusão do raciocínio) e "mansplaining" (quando um homem explica algo para uma mulher, sem necessidade ou sem ser questionado, subestimando sua capacidade de compreensão).
A defensora acredita ser preciso uma mudança cultural para reverter toda essa situação. Ela argumentou que a previsão constitucional de igualdade entre homens e mulheres ainda ocorre, infelizmente, mais no plano formal e, não, no material. "Nós morremos pelo simples fato de sermos mulheres, morremos dentro de casa – que é um local que deveria ser de proteção", lamentou.
Ainda para ilustrar a necessidade de mudanças nos hábitos culturais, Nóbrega citou o caso de um jovem de 23 anos da Estrutural que não aceita que a esposa, mãe de quatro filhos, trabalhe fora. "Se não mudarmos a cultura, vamos enxugar gelo", pregou, defendendo ser preciso assegurar, também, formas de dar mais autonomia para as mulheres, como a garantia de creches.
Segundo a professora da Universidade de Brasília (UnB) Lia Zanotta, o machismo é estruturante no Brasil, resultado de um passado colonialista racista e sexista. Especialista em relações de gênero, ela enxerga na educação o caminho para mudar a cultura: "Não podemos pensar em um sistema educacional que não fale sobre educação de gênero". Zanotta também cobrou políticas para garantir salários iguais para homens e mulheres e cotas afirmativas para ampliar a presença feminina nos parlamentos.
A questão da representatividade foi outro aspecto bastante defendido para mudar a cultura machista no Brasil. "A presença de mulheres em posições de representatividade é muito importante pelo exemplo. Meninas precisam de exemplos para se espelharem", apontou Luciana Marques Vieira da Silva, procuradora-geral adjunta do DF.
Parentalidade responsável – "Enquanto for responsabilidade só das mulheres criar os filhos, elas não terão oportunidades iguais no mercado de trabalho", afirmou a deputada Júlia Lucy. Isso foi ponto consensual entre os presentes na comissão geral. "No afã de proteger as mulheres, muitas vezes os legisladores acabam por atrapalhar seu crescimento profissional", ponderou a distrital, que defendeu a licença parental no lugar da licença maternidade.
Para a procuradora Luciana da Silva, muitas mulheres não assumem cargos de gestão porque são responsabilizadas pelo "bom andamento da vida familiar" e pela criação dos filhos.
Engajamento – O deputado Leandro Grass defendeu a importância de iniciativas como o movimento "ElesPorElas" ("HeForShe"), da ONU Mulheres, que busca envolver os homens na luta contra o machismo: "O machismo é protagonizado por homens, mas também somos vitima dele".
"É essencial trazer essa discussão para o seio dos homens, para abandonarem ações, comportamentos e falas machistas", ressaltou a deputada Arlete Sampaio (PT). Por sua vez, Júlia Lucy elogiou que o debate desta tarde tenha sido realizado por iniciativa de um colega homem. "O machismo também os afeta, quando, por exemplo, não podem expressar seus sentimentos ou se sentem diminuídos se a mulher tiver renda mais alta, mas é pior para a mulher, que vira saco de pancada", concluiu.
Denise Caputo
Fotos: Carlos Gandra
Comunicação Social – Câmara Legislativa