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Artigo

Liliane Roriz - A Copa salvou o plano de Lúcio Costa

23/05/2014 17h15
A intenção do governo de aprovar, aproveitando-se da Copa do Mundo, projeto de lei que trata do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB), promovendo modificações profundas no projeto original de Lúcio Costa, é abordada pela deputada Liliane Roriz (PRTB) neste artigo. Na opinião da parlamentar ao expor sua proposta, durante os preparativos para a festa do futebol, o GDF provocou a reação de vários setores. Para a deputada "saber modernizar-se, sem comprometer a obra de JK, não é apenas um desafio, tem de ser o compromisso de todo governante que ocupa o Buriti". Ela defende que "a Copa deu um drible nos mercenários de nossa cidade" e que esse, talvez seja, o grande legado que o Mundial deixará para todos nós.

Muito se fala sobre a Copa, o que ela deixará para nossa cidade e a inversão de prioridades de nossa capital apenas para satisfazer os cartolas da Federação Internacional de Futebol, a Fifa.

Paralelamente a essas discussões, de forma discreta, avançavam estratégias para verem aprovadas medidas que poderiam mudar drasticamente a qualidade de vida em Brasília. Esse era o objetivo da aprovação do projeto que daria nova redação ao Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília, o PPCUB. E tentavam reeditá-lo a toque de caixa, nas sombras dos debates acalorados sobre a Copa do Mundo.

Mundial de lado, desde que Brasília recebeu, da Unesco, o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1987, eu acreditava que esse mérito era apenas pelo reconhecimento à beleza da obra da cidade criada pelo mestre Juscelino Kubitschek. E era. Só que não representava apenas isso.

Essa minha visão poética foi brutalmente transformada ao perceber a insistência descabida do atual governo em querer expandir espaços como o Setor Hoteleiro, a construção da quadra 901 Norte e a inconsequente liberação de loteamento em pleno Eixo Monumental, tudo com a desculpa da Copa. Imaginem: torres gigantescas, shoppings, hotéis, flats – todos aglomerados em área de 85 mil metros quadrados, bem no coração da cidade apenas para receber turistas estrangeiros durante o mundial. Fora a descabida proposta de ocupar áreas à beira do lago com grandes hotéis, sempre com a desculpa da tal Copa do Mundo.

Ora, qualquer brasiliense, de nascimento ou de coração, que ama esta cidade quer o desenvolvimento de nossa capital. Todos esperam que Brasília esteja sempre alinhada à modernidade das linhas curvas de Niemeyer, com a obra arrojada de Athos Bulcão e ainda com os jardins mundialmente conhecidos de Burle Marx. Porém, saber se desenvolver, modernizar-se, sem comprometer o espírito da obra de JK, não é apenas um desafio, tem de ser o compromisso de todo governante que ocupa o Buriti.

Certo dia, ao encontrar uma autoridade respeitada da área de obras do atual governo, perguntava-lhe por qual motivo o GDF não adquiria uma versão mais moderna dos vagões do metrô que, dia sim, dia não, quebra sobre os trilhos. O questionamento, totalmente inocente, serviu de combustível para que ele me revelasse o real sentimento deste governo: "Por causa da droga do tombamento".

O fato é que estranhei a espontaneidade do "doutor" em falar sobre o assunto. Afinal, Brasília recebeu com festa o título da ONU, reconhecimento que centenas de cidades do mundo sonham o tempo inteiro. Quem é de Brasília sabe a importância desse título, que é nosso e nos faz encher de orgulho para dizer: "Moro numa cidade que é Patrimônio da Humanidade".

Foi aí que a minha inocência deu espaço a uma revolta sem fim. Percebi que o "corpo mole" do atual governo para impedir as agressões ao projeto de Lúcio Costa teria um motivo claro: a perda do tombamento. Afinal, supõe-se que o título impede a concretização de ideias mirabolantes de forasteiros, como a de muitos que chegaram agora e não enxergam problema algum em trocar a essência do projeto de nossa cidade por proposta qualquer de alguma empreiteira cheia do dinheiro.

Falo, sim, do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília, o PPCUB, uma sigla complicada, mas que terá resultados práticos ainda mais difíceis. Essa proposição, que tem sido defendida apenas pelo governo, tem deixado lideranças da cidade sem dormir, todos temerosos com o risco do comprometimento não apenas do projeto de Lúcio Costa, mas de nossa qualidade de vida.

Está claro que o fim do tombamento, que resultaria da aprovação desse projeto, iria acabar com a dor de cabeça que o GDF sempre tem quando decide tocar um projeto, como o da 901 Norte e o loteamento do Eixo Monumental. Realmente deve ser uma "chatice", como eles mesmos costumam afirmar, ter de submeter esse tipo de interesse a pessoas e órgãos que realmente têm compromisso com a nossa cidade.

Essa análise, que hoje é obrigatória, acaba sendo um verdadeiro obstáculo para uma proposta que pode render até R$ 800 milhões para o governo e movimentar até R$ 4 bilhões na construção de torres de 18 andares com 45 metros, que bloquearão, com concreto maciço, o lindo horizonte que ainda prevalece naquele pedaço da Asa Norte. Falo isso apenas da 901 Norte, sem ter conseguido aferir o valor quando o assunto é a orla do Lago Paranoá ou os canteiros de nosso Eixo Monumental, a avenida mais larga do mundo.

A força do poder econômico não pode ser maior do que o amor que temos por nossa cidade. Qualquer proposta muito aventureira, que não possui apoio unânime da sociedade, como o PPCUB, precisa ser descartada imediatamente. Os interesses coletivos têm de prevalecer em relação ao individual.

Quem ama verdadeiramente Brasília precisa barrar esse tipo de projeto, sem correr o risco de se convencer com justificativas banais de que a cidade precisa se modernizar. Ou até de que um título como este serve apenas para "engessar" nossa capital, como é o discurso de muitas autoridades locais.

Afinal, no caso específico do centro de Brasília, o desenvolvimento pode até vir. Mas o caos que chegará junto espantará, de uma vez por todas, a ainda bela qualidade de vida que temos – esse sim o maior patrimônio e o mais importante título que temos em nossa cidade.

Brasília nasceu planejada e assim deve permanecer. Quem não gosta de nossa capital como ela é, que fomente o caos urbano e a desorganização urbanística em qualquer outro canto do planeta, menos aqui.

Por sorte, nada mais que isso, a Copa, nesse caso, deu um drible nos mercenários de nossa cidade. E esse talvez seja o grande legado que o Mundial de Futebol deixará para todos nós. Ainda bem.

* Liliane Roriz é deputada distrital pelo PRTB

Deputada Liliane Roriz