Criação de um centro de tratamento da endometriose é demanda de audiência pública
Criação de um centro de tratamento da endometriose é demanda de audiência pública

A criação de um centro multidisciplinar para o tratamento da endometriose foi uma das principais demandas da audiência pública que debateu sobre a doença na manhã desta quarta-feira (22) em plenário. A endometriose, que atinge uma em cada dez mulheres no mundo, pode apresentar, entre outros sintomas, cólica menstrual progressiva, dor durante a relação sexual, dor e sangramento ao urinar, ao evacuar, inchaço, náuseas e vômitos, constipação e diarreia, além de problemas de infertilidade. A audiência, que reuniu médicos especialistas, portadoras da doença, representantes do governo e parlamentares, faz parte das metas do Dia Internacional de Luta contra a Endometriose, celebrado no dia 8 deste mês, para favorecer o diagnóstico e tratamento da doença.
Os mediadores do debate, deputados Claudio Abrantes (PDT) e Reginaldo Sardinha (Avante), defenderam políticas públicas para o enfrentamento do problema. Abrantes, que trouxe o debate à Casa em 2016, disse que "com o novo governo temos a esperança de avançar na melhora do tratamento para os que sofrem com o problema no dia a dia". Ele reconheceu que é preciso ser mais "incisivo" para que as políticas públicas possam chegar efetivamente às mulheres.
"Sou sensível à causa por ter lutado com minha esposa contra a doença; não é só a mulher que sofre, é a família inteira", afirmou o deputado Sardinha. Ele considerou que a endometriose é "pouco assistida pelo SUS", sendo que o tratamento adequado é um desafio para o DF.
Centro de Excelência - Diversos participantes da audiência defenderam a criação de um centro de excelência multidisciplinar no Distrito Federal para tratamento da doença, como a ginecologista Lizandra Paravidine. "A endometriose tem tratamento, e saúde é direito de todos", proclamou. Ela apresentou dados mundiais mostrando que os custos com as consequências da doença representam o dobro dos custos com o tratamento.
Paravadine, que é chefe da Unidade Materno-Infantil do Hospital Universitário de Brasília, explicou que a doença é a presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina que induz à reação inflamatória crônica. De acordo com ela, são necessários exames para o correto diagnóstico, como a ultrassonografia, a ressonância e a vídeo laparoscopia, a qual inclusive possibilita a cirurgia de remoção dos tecidos, tratamento indicado para a endometriose profunda.
Também o ginecologista Jânio Serafim, médico da Unidade de Ginecologia Oncológica do Hospital de Base, defendeu a necessidade de um centro específico voltado à endometriose. O médico narrou que muitas pacientes chegam naquela unidade com quadro de endometriose porque ficam meses peregrinando na rede pública em busca de tratamento adequado.
Segundo o médico especialista em endometriose, Alisson Zanatta, os grandes avanços na área são os exames de imagem, que permitem entender a doença e avançar no diagnóstico e tratamento. "A endometriose é um desafio mundial", afirmou, ao defender debates como a audiência pública de hoje, quando os envolvidos têm a chance de trocar informações e discutir políticas públicas. "No DF temos a oportunidade de criar um modelo e sermos referência", acredita. Já a representante da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Hitomi Miura Nakagawa, abordou a relação entre endometriose e infertilidade. Segundo a médica, a doença compromete a saúde reprodutiva da mulher.
Representante da Secretaria de Saúde do DF, a ginecologista Marta Betânia Teixeira disse que o órgão tentará "seguir a linha de intenções" apontada pela audiência. Médica da Secretaria há quase vinte anos, ela reconheceu que a doença requer uma atuação multidisciplinar. "É um assunto que precisa ter prioridade", concordou.
Depoimentos – Diversas portadoras narraram sobre os sofrimentos pessoais causados pela doença e também a luta em busca de tratamento, entre elas a servidora Tatiana dos Santos. Ela contou que sofreu com a doença desde a adolescência até realizar a cirurgia de endometriose.
Representante da Endomarcha no DF – marcha mundial pela conscientização da endometriose –, Tatiana destacou que a doença é "interna e silenciosa". Portanto, argumentou pela necessidade de divulgar os sintomas à população, bem como a correta informação sobre os tratamentos. "Portadoras sofrem caldas e não são vistas", declarou. Ela entregou um documento aos parlamentares com várias demandas das portadoras, como tratamento digno pelo SUS, acesso a convênio com médicos especialistas na doença, direito à realização da cirurgia com remoção, entre outros pontos.
Ela disse que a cirurgia de cauterização foi ineficaz porque, assim como ocorreu com outras portadoras, o problema retorna. Segundo Tatiana, após a cirurgia de endometriose, de remoção dos tecidos, sua vida melhorou substancialmente, pois ela não sofre mais com as dores, aumentando inclusive a produtividade no trabalho. Outras portadoras pediram ainda o reconhecimento da endometriose como doença social, crônica e incapacitante.
Franci Moraes
Fotos: Silvio Abdon/CLDF
Núcleo de Jornalismo - Câmara Legislativa