(Do Deputado RICARDO VALE - PT)
Manifesta louvor ao brasileiro Chico Buarque pela conquista do Prêmio Camões, em Portugal.
Senhor Presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal
Com base no art. 144 do Regimento Interno, sugiro a esta Casa aprovar moção de louvor ao nosso querido e admirado brasileiro Chico Buarque pela conquista do Prêmio Camões, em Portugal, com o seguinte teor:
A CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL, por iniciativa do Deputado Ricardo Vale, manifesta louvor ao cantor, compositor, músico, dramaturgo, poeta e escritor CHICO BUARQUE, pela belíssima homenagem e reconhecimento pela sua obra, ocorridos em 24 de abril de 2023, em Portugal.
Chico Buarque teve a honra de receber o prêmio Camões das mãos do Presidente LULA e do Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.
O prêmio Camões foi criado em 1988 para homenagear autores de língua portuguesa cujas obras se destacam no cenário da Literatura e contribuem para enriquecer o patrimônio literário e cultural do nosso idioma.
Luís de Camões (1525-1580) é considerado, por boa parte dos estudiosos, como o maior nome das literaturas de língua portuguesa.
Em seus Os Lusíadas, poema épico que o imortalizou entre os grandes nomes do Renascimento europeu, ele retrata e glorifica os feitos dos portugueses em seu território e pelo mundo na era dos Grandes Descobrimentos.
E, com sua crítica certeira, velada, fina e elegante contra o Governo anterior, Chico Buarque, em seu discurso, parece ter bebido nas mesmas fontes camonianas, tão altivas e inspiradoras quanto às de Hipocrene:
Quem não sabe arte não na estima! (Canto V, 97)
A capacidade poética de Chico Buarque, sua música e inspirações são de conhecimento geral de toda a sociedade brasileira e dispensam qualquer apresentação, pois falam por si mesmas.
Mas destaco uma de suas músicas mais célebres, Cálice, para relembrar que suas muitas metáforas ganharam contornos de crítica política ao regime ditatorial imposto ao Brasil pelos militares e às desigualdades sociais e cerceamento da liberdade que a Ditadura nos impôs.
Felizmente, Chico Buarque sobreviveu ao regime ditatorial e viu suplantado o declínio democrático em que havia mergulhado a sociedade brasileira no tempo de sua juventude.
Camões não teve a mesma sorte, pois, embora tivesse cantado e enaltecido a glória e os feitos dos grandes portugueses, viu sua amada pátria mergulhar na pequenez e, coincidência ou não, passar ao domínio espanhol no mesmo ano de sua morte.
Sua tristeza pelos destinos indesejados que sua gente lusitana foi sendo conduzida está assim imortalizada no último canto de seus Os Lusíadas:
Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar à gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Du’a austera, apagada e vil tristeza.
Diversamente de Camões, as Musas que inspiram Chico Buarque mantêm sua lira temperada e sua voz clara e límpida como as fontes de onde manavam e por onde vicejam as belezas mais puras e revigorantes da Ilha dos Amores camoniana.
O Presidente LULA, em seu discurso de homenagem a Chico Buarque, implicitamente, comparou a sociedade retratada na vida e na obra de Chico Buarque com a sociedade retratada por Camões:
Esse prêmio deveria ter sido entregue em 2019 e não foi. Todos sabemos por quê. O ataque à cultura em todas as suas formas foi uma dimensão importante do projeto que a extrema direita tentou implementar no Brasil. Se hoje estamos aqui para fazer uma espécie de reparação e celebração da obra do Chico é porque finalmente a democracia venceu no Brasil.
Não podemos esquecer que o obscurantismo e a negação das artes também foram uma marca do totalitarismo e das ditaduras que censuraram Chico no Brasil e em Portugal. Esse prêmio é uma resposta do talento contra a censura, do engenho contra a força bruta.
A obra do Chico acompanha toda a História recente do Brasil. Ela sempre se manteve atenta ao destino político e cultural de nossos países irmãos e mostrou que arte e cultura estão entrelaçadas com a política e os nossos ideais de liberdade e democracia.
Por todas essas razões e por tudo o quanto Chico Buarque representa para as artes e a cultura do Brasil e dos demais países lusófonos, a Câmara Legislativa da Capital da República junta-se aos portugueses para reconhecer e prestigiar CHICO BUARQUE e o legado – “o engenho e a arte” – de uma obra que deverá estar para sempre escrita no Panteon da História, como disse outrora Castro Alves (1847-1871), um outro poeta também grandíloco da “última flor do Lácio, inculta e bela” (Olavo Bilac).
PARABÉNS, FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA!
Um brasileiro como todos nós!
JUSTIFICAÇÃO
O noticiário de 24 de abril de 2023 não podia ser mais alvissareiro: as artes brasileiras cruzaram o Atlântico para dizer ao mundo que o “Brasil está de volta”.
E volta com a política e a cultura outra vez de mãos dadas para selar a grandeza de uma Nação, que se viu apequenar, de 2019 a 2022, com um “fraco rei [presidente] que fez fraca a forte gente” (Os Lusíadas, Canto III, 138).
É muito bom ver que estamos aos poucos nos livrando mais uma vez desses grilhões com que tentam nos aprisionar por meio de mentiras, distorções e fakenews.
Já podemos respirar outros ares – os ares da liberdade, os ares da democracia e os ares de sermos novamente reconhecidos como Nação e não como pária na sociedade internacional.
Por essas razões, creio necessário manifestar minha satisfação em ver um brasileiro reconhecido internacionalmente, em nossa pátria-mãe, e compartilhar com os ilustres Deputados Distritais desta Casa a presente Moção a ser enviada ao nosso querido Chico Buarque.
Sala das Sessões, 24 de abril de 2023.
RICARDO VALE
Deputado Distrital – PT